“O corpo que tenho é o corpo que sou”

Essa é uma das frases mais conhecidas do filósofo Merleau-Ponty, e que vejo caber bem no trabalho do visagista. Principalmente porque o Visagismo, mais especificamente Philip Hallawell, fala que “ao se olhar no espelho, você diz que se vê, não que vê seu rosto. Seu rosto é você – para você mesmo e para os outros” *.

Logo, uma maquiagem por exemplo, vai revelar características de quem você é, sem que haja distinção entre a representação do seu rosto e o seu ser.

Esses dois pensamentos nos ajudam a entender o por quê de tanto receio ao cortar o cabelo, o trauma que um corte errado provoca e a reação, “exagerada” para os desavisados, àqueles 4 dedos cortados além da conta. Por que, mesmo com um corte bonito, a pessoa chora? Por que, ao sair do salão de beleza e antes de chegar ao evento, a pessoa passa em casa, lava o rosto e prefere ir de “cara lavada” do que ir com a bela maquiagem?

As explicações são inúmeras, mas vamos manter o foco.

Antes de um corte ou uma maquiagem serem belos, é necessário que ele exprima, demonstre quem a pessoa é. É por isso que olhamos determinados cortes, achamos lindos e pensamos: “mas eu jamais teria coragem de cortar assim”. A sua imagem precisa sempre revelar a sua própria identidade e cada um tem uma forma de se expressar, o seu jeito de apresentar-se ao outro e cada corte tem a capacidade de direcionar os olhares e emoções.

O que pode nos facilitar a vida é entender que trabalhar com visagismo é olhar além do formato de rosto, do corte bonito, da maquiagem perfeita. É compreender que quando tocamos o cabelo do cliente, estamos tocando nele, e não apenas no cabelo. Quando atravessamos o limite do corte de cabelo, atravessamos o limite do ser do nosso cliente. Não é o cliente que deve ser compreensivo, somos nós que temos que entender o processo dele. Que aquela maquiagem vai revelar o cliente, quem ele é, e não somente os lábios ou os olhos.

Ser visagista é abandonar a máxima: “cabelo cresce”. É pensar, compreender, perceber, ser empático e estar para o cliente. E assim a experiência será melhor, a fidelização vai surgir e o sucesso vai nos alcançar.

Enfim, talvez até correr o risco de adaptar a frase para: o cabelo que tenho é o cabelo que sou!

*trecho do livro: Visagismo Integrado: Identidade, estilo e beleza – Philip Hallawell.

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